Escassez de mão de obra, busca por produtividade e pressão por escala aceleram a adoção de sistemas industrializados no país. Na visão do arquiteto especialista em construção industrializada, Gustavo Pozzato, a transformação já começou — e eventos como a Feira Construir Aí ajudam a consolidar esse novo momento.
A construção civil brasileira vive uma virada silenciosa, mas cada vez mais visível. Diante da falta de mão de obra qualificada, do déficit habitacional e da necessidade de entregar mais em menos tempo, soluções industrializadas deixaram de ocupar apenas o campo da inovação para entrar de vez na agenda econômica do setor. Entre os sistemas que mais ganharam espaço nos últimos anos, o steel frame desponta como um dos modelos de maior aceitação, puxando uma mudança que vai além da técnica construtiva e alcança toda a lógica de projeto, suprimentos, execução e distribuição.
Esse avanço, no entanto, não acontece sem obstáculos. A carga tributária ainda pesa sobre o setor e faltam incentivos mais claros para acelerar a adoção da industrialização em larga escala. Soma-se a isso a curva de aprendizado de profissionais que foram formados dentro de uma lógica tradicional e agora precisam migrar para um pensamento mais integrado à fábrica, à modulação e à montagem. Mas talvez o maior gargalo continue sendo o investimento necessário para estruturar uma cadeia robusta de fornecimento e distribuição, capaz de sustentar crescimento com previsibilidade.
Mesmo assim, o movimento já parece irreversível. A escassez de mão de obra forçou o mercado a rever hábitos, processos e margens. “Ao mesmo tempo, já vemos mudanças concretas acontecendo. A escassez de mão de obra está forçando o mercado a buscar produtividade, previsibilidade e redução de desperdícios”, comenta Pozzato. A discussão deixou de ser apenas inovação e passou a ser necessidade econômica.
A discussão sobre industrialização deixou de ser apenas uma pauta de inovação e passou a ser, sobretudo, uma resposta prática a problemas reais do presente. Em vez de depender exclusivamente do improviso do canteiro, a construção começa a buscar mais controle, menos desperdício, mais velocidade e melhor desempenho.
5 mil m² dedicados à industrialização
É nesse contexto que a Feira Construir Aí ganha relevância. Para Gustavo Pozzato, embaixador do setor de construção industrializada na 5ª edição do evento, a feira vem se consolidando como um espaço estratégico para aproximar tecnologia e realidade de mercado a partir de sua área de exposição de 5 mil m² dedicados à construção industrializada.
A proposta é fugir do discurso abstrato e apresentar ao público o que já está funcionando na prática, com empresas, soluções e exemplos que mostram como a industrialização saiu do campo das promessas e passou a ocupar espaço concreto no Brasil.
Segundo o diretor comercial da Feira Construir Aí, Fernando Costa, pelo segundo ano consecutivo, a feira trará um pavilhão exclusivo voltado ao steel frame, drywall e construção modular. “Acreditamos que promover uma área de exposição que destaque a construção industrializada potencializa o desenvolvimento do setor e ainda, fortalece a cadeia econômica entre o fornecedor e o investidor, além do construtor e do profissional”, relata Costa.
“Vejo a Feira Construir Aí assumindo um papel muito importante no ecossistema da construção industrializada. A cada edição ela vem superando as expectativas em relação às novidades do mercado, reunindo empresas que já são referência no segmento e estimulando profissionais que ainda não estão olhando para a industrialização como uma oportunidade real”, diz o arquiteto.
“Na minha participação como embaixador, o público pode esperar uma visão muito prática do que está acontecendo hoje no mercado. A ideia é aproximar a tecnologia da realidade de quem constrói, mostrando não apenas conceitos, mas exemplos, aplicações e o que já está funcionando na prática”, reforça.

A maturidade do setor, porém, ainda é de transição. Há um trabalho importante de educação a ser feito, especialmente entre profissionais moldados por métodos convencionais. Ao mesmo tempo, incorporadores, construtores e investidores já passaram a olhar a industrialização com mais seriedade. O tema entrou definitivamente na pauta da produtividade, da escala e da competitividade. Em outras palavras, o mercado talvez ainda não tenha resolvido todas as suas dúvidas, mas já entendeu que não pode mais ignorar a mudança.
Conexões de valor
Dentro dessa conversa, a Liga surge como uma iniciativa voltada a conectar quem está construindo essa transformação no dia a dia. O fio condutor de sua participação na feira não está apenas na defesa da produtividade ou da inovação tecnológica como conceitos isolados, mas na leitura mais ampla da cadeia. A proposta é reunir diferentes atores do ecossistema — da indústria à obra, da inovação em sistemas construtivos à comunicação — para mostrar que a industrialização não acontece apenas dentro da fábrica. Ela depende de uma reorganização estrutural do setor, de novas conexões e de uma visão menos fragmentada da construção.
Os casos práticos ajudam a sustentar esse argumento. Empresas como Brasil ao Cubo e Espaço Smart simbolizam, cada uma a seu modo, o amadurecimento da construção industrializada no país. De um lado, a capacidade de levar a moradia para um modelo próximo ao de linha de produção, com forte redução de prazo e maior padronização de qualidade. De outro, a consolidação de uma rede de distribuição que amplia o acesso aos sistemas e fortalece o mercado. São sinais de que a industrialização já não depende apenas de discurso técnico para provar valor: ela começa a apresentar escala, presença e resultados.
Outra mudança importante está no perfil do profissional. O canteiro do futuro exige menos improviso e mais domínio de processos, tecnologia, gestão e integração entre áreas. Não se trata apenas de executar melhor, mas de compreender sistemas e enxergar a construção como uma cadeia coordenada. Para Pozzato, a formação dessa nova geração passa por educação, troca de experiências e comunidades capazes de aproximar quem está enfrentando, na prática, os desafios do setor. Nesse sentido, a própria Liga se posiciona como ponte entre conhecimento e aplicação real.
Se ainda existe resistência, ela costuma aparecer no velho argumento de que a industrialização levaria à padronização excessiva e à perda de identidade arquitetônica. Para quem acompanha de perto essa evolução, a crítica já não se sustenta como antes. O que muda não é a liberdade de criar, mas a lógica de concepção. Projetar para sistemas industrializados exige pensar em produção, montagem e eficiência desde o início, sem que isso elimine personalização, volumetria, escolha de materiais ou qualidade espacial. A discussão, portanto, deixa de ser “industrialização versus arquitetura” e passa a ser sobre como usar melhor as ferramentas disponíveis para construir com mais inteligência.
No Brasil, essa virada ainda está em curso. Mas os sinais são claros: a construção industrializada deixou de ser nicho, ganhou densidade e começa a redesenhar o setor com base em produtividade, previsibilidade e escala. Mais do que uma tendência, ela se apresenta como uma resposta concreta às pressões de um mercado que já não pode depender apenas dos métodos do passado.

